Cidades
por Anderson Ramos
Publicado em 05/11/2026, às 06h00 - Atualizado às 08h00
Um desentendimento por causa de uma intervenção artística em um prédio histórico se tornou o novo episódio da complicada relação de turistas israelenses com simpatizantes da causa palestina em Itacaré, município do litoral sul da Bahia.
Segundo relato da professora Mariá Veiga, coordenadora da Frente Palestina do Sul da Bahia, um grupo de israelenses tentou vandalizar pinturas na fachada do Casarão Azul, imóvel colonial localizado na Praça São Miguel.
De acordo com Mariá, a obra fazia parte de uma manifestação em defesa do “turismo ético” na região, que denunciava o racismo praticado pelos visitantes e prestava solidariedade aos palestinos.
Ainda conforme o relato da professora, na data da intervenção, no dia 30 de outubro, acontecia a Flicaré, feira literária de Itacaré, e por isso, vários artistas que participavam do evento acabaram se voluntariando para deixar o seu traço na pintura, que tomou proporção maior que a inicialmente imaginada. A tentativa de vandalizar o mural aconteceu após o fim da mobilização.
“Um grupo, que devia ter umas sete pessoas vestidas com as vestimentas tradicionais, foi caminhando até o casarão com a proposta de danificar o mural feito pelos moradores, pelos artistas, pelos estudantes e pela comunidade. Eles foram com essa intenção. E aí os próprios nativos, não estávamos nós, ativistas, nada disso. As próprias pessoas que estavam na praça protegeram o mural, porque as pessoas ficaram felizes com aquele mural ali”, explicou Mariá Veiga ao site Brasil de Fato.
Nos últimos meses, o casarão foi alugado por um grupo de israelenses, que, segundo os ativistas da Frente Palestina do Sul da Bahia, estavam usando o espaço de maneira irregular e para promover ideias supremacistas, racistas e sionistas.
Diante da repercussão do caso, o responsável pelo Casarão Azul veio a público mostrar sua versão dos fatos. Marcelo Barros publicou um vídeo nas redes sociais no qual informa que o imóvel pertence à sua família há mais de um século, e que serve de ponto de acolhimento para pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ele explica que cedeu a parede externa do prédio para que artistas locais pudessem expor sua arte em meio à programação da Flicaré. No entanto, segundo o proprietário, o teor da pintura não estava de acordo com o que foi combinado e, por isso, pediu a sua retirada.
“As paredes do casarão foram tomadas por pinturas que não estavam autorizadas. Então, o que nós queremos deixar claro é que nós não somos racistas, nós não somos contra nenhum grupo étnico racial, nenhum grupo religioso, nenhuma denominação de crença e também deixar claro que nós não somos ativistas de nenhum grupo, nem pertencemos a qualquer denominação religiosa ou que possa trazer discórdia e disseminar o ódio, o racismo, a intolerância religiosa”, afirmou no vídeo.
“Quem tem suas diferenças religiosas, políticas ou sociais que deixem para tratá-las nos seus países. A partir de hoje, ninguém está autorizado a fazer qualquer intervenção aqui no Casarão Azul da Praça São Miguel. As autoridades já foram informadas, já foram colocadas câmeras para fazer a cobertura do casarão e aqui da poligonal da Praça São Miguel. Então, caso alguém venha cometer algum abuso nesse sentido, os responsáveis serão identificados e as medidas necessárias serão tomadas para garantir a integridade desse patrimônio”, alertou.
Em nota divulgada nas redes sociais, a Frente Palestina do Sul da Bahia reconheceu que houve a ampliação da intervenção para além da proposta que foi inicialmente apresentada, e afirma que não houve a intenção de desrespeitar o espaço cedido.
“Diante da manifestação do proprietário pela retirada das pinturas, acatamos imediatamente sua solicitação. Providenciamos a compra de tintas e contratamos um profissional para realizar o serviço de pintura e devolver a parede às condições anteriores”, diz o comunicado.
Ao BNews, o secretário de Comunicação de Itacaré, Albert Queiroz, disse que o desentendimento foi um caso isolado, sem maiores proporções.
Trata-se de um fato isolado. Todos são muito bem-vindos a Itacaré, independente de nacionalidade, de religiosidade, de raça. A gente não compactua com nenhum tipo de conflito ideológico. A guerra é de Israel e da Palestina, é uma guerra do Oriente Médio, não é de Itacaré, no sul da Bahia”, disse o secretário.
Procurada pela reportagem, o chefe da Delegacia Territorial de Itacaré, o delegado Ricardo Ribeiro, informou que nenhum boletim de ocorrência foi registrado em decorrência do desentendimento.
A reportagem também procurou o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado, Felipe Freitas, que informou que o caso está sendo monitorado pela pasta.
É preocupante qualquer episódio em que a manifestação política esteja sendo limitada ou que pessoas estejam sendo discriminadas por sua origem nacional. Seguimos aguardando maiores elementos e assim que tivermos atuaremos tanto para investigar melhor o ocorrido quanto para pactuar com a comunidade local estratégias de prevenção a violência e promoção de uma cultura de paz”, afirmou.
Felipe Freitas reforçou que casos de violência política, religiosas e violação de direitos humanos podem ser denunciados pelo Disque 100, canal nacional de atendimento a violações de direitos humanos, ou diretamente à Ouvidoria da SJDH, pelo telefone (71) 98636-8852.
No primeiro semestre deste ano a convivência entre os dois grupos passou por seu momento mais turbulento. Em março, três israelenses foram detidos pela polícia após um tumulto entre grupos que participavam do ato pró-Palestina.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram manifestantes gritando “Free Palestine” (Palestina livre) e registram momentos de tensão quando estrangeiros teriam confrontado participantes do protesto.
A Polícia Civil dinformou que a Delegacia Territorial de Itacaré registrou ocorrência de desacato durante a abordagem policial. Segundo a investigação, três homens resistiram à ação da polícia, sendo conduzidos à delegacia. Foram lavrados três Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e, após serem ouvidos, os envolvidos foram liberados.
Em junho, um outro protesto, dessa vez pacífico, movimentou o município. Com faixas, bandeiras e palavras de ordem, os manifestantes se reuniram em frente às lojas e restaurantes da região que recebiam turistas vindos de Israel.
"O dinheiro que eles deixam no seu comércio é sujo de sangue. É sujo de sangue de mulheres e crianças palestinas. Senhoras, estamos aqui porque não permitiremos mais esses assassinos de mulheres e crianças transitando livremente, nem aqui em Itacaré, nem em nenhum lugar aqui na Bahia ou em um lugar de uma outra região desse país", disse um dos manifestantes.
Nos últimos anos, Itacaré transformou-se em um dos principais destinos de jovens israelenses recém-saídos do serviço militar obrigatório, juntamente com Morro de São Paulo, em Cairu. De acordo com agências de turismo locais, a estimativa é de que mais de 4 mil turistas tenham visitado o município só em 2025.
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