Artigo
Publicado em 03/11/2026, às 06h41 José Medrado
É inacreditável. Nesses dias tempestuosos que estamos vivenciando, já de há muito, só vejo o reforço de que o verdadeiro sentido do cristianismo está sendo escrachado, uma vez que ser cristão não reside em concordar com a forma de ser e de pensar do outro, em nada, inclusive politicamente. Entendo que devemos ver o próximo mais vulnerável com olhar de compaixão, enxergar no outro a dignidade humana. Nas últimas semanas, no entanto, tem-se visto ao navegar pelas redes sociais neste período pós-eleitoral, coisas, postagens inacreditáveis. Deparei-me com uma onda perturbadora de vídeos: pessoas que se declaram cristãs anunciando a interrupção de seus trabalhos de assistência social, distribuição de alimentos e apoio a quem está em situação de rua. A justificativa alegada? A suposta escolha política ou o voto predominante das camadas mais vulneráveis da sociedade. Essa posição é tão incompreensível quanto dolorosa. O ato de estender a mão aos mais necessitados não pode ser encarado como um contrato de fidelidade partidária ou um investimento com retorno eleitoral. Quando a solidariedade é condicionada a um alinhamento ideológico, ela deixa de ser amor ao próximo e se transforma em barganha.
Ao olharmos para a essência da fé cristã, a mensagem central dos Evangelhos nunca foi sobre impor condições para exercer a caridade. Jesus de Nazaré não questionou a orientação política, a origem ou o histórico daqueles que alimentou, curou ou acolheu. Pelo contrário, as Escrituras apontam repetidamente para o cuidado incondicional com os marginalizados, os famintos e os desamparados. Transformar a ajuda humanitária em moeda de troca ou punição ideológica desfigura completamente esse ensinamento.
Usar a vulnerabilidade de quem não tem o que comer como instrumento de retaliação política reflete uma profunda desconexão com os valores da empatia e da compaixão. Fazer o bem apenas a quem pensa como nós não exige esforço algum. O verdadeiro desafio ético e espiritual está em servir sem distinção, reconhecendo a dor alheia acima de qualquer divergência das urnas.
Interromper a assistência social por descontentamento político revela que a motivação inicial talvez não fosse o amor genuíno, mas o desejo de controle. A fome, o frio e o abandono não possuem partido político. Que possamos resgatar a coerência e lembrar que o compromisso com a dignidade humana deve estar sempre acima de qualquer disputa eleitoral.
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