Justiça

Operação Faroeste: MPF pede condenação de Sandra Inês e confisco de mansão em Praia do Forte

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Investigação revela lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial em imóveis de alto valor na Bahia  |   Bnews - Divulgação Foto: Divulgação
Claudia Cardozo

por Claudia Cardozo

claudia.cardozo@bnews.com.br

Publicado em 04/11/2026, às 10h40



A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu início nesta quarta-feira (4) ao julgamento do mérito da Ação Penal 953, decorrente da Operação Faroeste. Na tribuna da acusação, a subprocuradora-geral da República Luiza Cristina Frischeisen pediu a condenação da desembargadora aposentada compulsoriamente Sandra Inês Rusciolelli e de seu filho, o advogado Vasco Rusciolelli, sob a acusação de integrarem e comandarem um esquema estruturado de venda de decisões judiciais no Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA).

O pedido ainda atinge ainda o empresário Nelson José Vigolo, o advogado Vanderlei Chilante,  ambos ligados ao grupo Bom Jesus Agropecuária, e o operador do esquema, o advogado Júlio César Cavalcanti Ferreira. Pelos cálculos apresentados pelo Ministério Público Federal (MPF), o grupo criminoso negociou quatro decisões judiciais em três processos estratégicos sobre disputas fundiárias no oeste baiano, movimentando o pagamento efetivo de R$ 3,3 milhões em vantagens indevidas, de uma promessa que chegava a R$ 4 milhões.

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Logo na abertura de sua fala, a representante da Procuradoria-Geral da República ressaltou que a apuração descortinou um esquema sistemático operado no coração do gabinete da magistrada baiana. "A desembargadora, em união de desígnios e divisão estruturada de tarefas com seu filho e operada por Júlio, integrou e liderou organização criminosa instalada em seu gabinete no Tribunal de Justiça da Bahia, voltada à comercialização sistemática de suas decisões", asseverou a subprocuradora-geral.

De acordo com o MPF, os atos ilícitos visavam blindar as terras ocupadas pela Bom Jesus Agropecuária e anular deliberações administrativas da Corregedoria das Comarcas do Interior do TJBA, que haviam cancelado matrículas de interesse da empresa. A subprocuradora enfatizou que Júlio Cavalcanti tinha trânsito livre nas dependências do tribunal e chegava a redigir os atos decisórios antes de sua publicação formal. "Júlio Cavalcanti tinha acesso livre ao gabinete da desembargadora, inclusive tendo poder de fazer decisões nesses autos. Há o pen drive que foi apreendido com Júlio Cavalcanti que, antes da decisão ser oficialmente proferida, já continha a minuta da decisão que ia ser proferida".

A acusação também detalhou o robusto conjunto probatório colhido durante a instrução, que inclui filmagens, perícias digitais em aplicativos de mensagens e monitoramento presencial. O destaque da sustentação foi a realização de uma ação controlada pela Polícia Federal, na qual cédulas previamente marcadas foram rastreadas após uma entrega de R$ 258,9 mil. O dinheiro, segundo o MPF, foi flagrado e apreendido na posse da própria família da magistrada. As investigações registraram ainda encontros presenciais entre os intermediários, incluindo reuniões no Aeroporto Internacional de Brasília.

Casa em Praia do Forte

No capítulo referente à lavagem de dinheiro, Luiza Frischeisen apontou que os envolvidos recorreram a contratos fictícios de honorários advocatícios, saques fracionados e transporte de grandes somas em espécie. Ainda destacou que houve ocultação patrimonial, conforme a acusação, no mercado imobiliário, em Praia do Forte, em Mata de São João. O MPF identificou a compra e reforma de um imóvel de alto padrão localizado no condomínio Enseada do Castelo, na Avenida do Farol, avaliado em R$ 4 milhões.


Segundo a Procuradoria, para disfarçar a verdadeira dona, o imóvel foi registrado no nome de outro filho de Sandra Inês, homônimo de Vasco. No entanto, diligências in loco e registros da administração condominial desmantelaram a manobra. "Embora as escrituras não estivessem em seu nome, se vê ali que houve lavagem, uma ocultação do patrimônio através de imóvel, mas quem era realmente, quem usava e quem pagava e quem se utilizava ali do imóvel era Sandra Inês", destacou a subprocuradora.

Ao formalizar o pedido de condenação, o órgão ministerial requereu a imposição de penas pelos crimes de corrupção passiva com causa de aumento, lavagem de capitais e organização criminosa para Sandra Inês e Vasco Rusciolelli, lembrando que o acordo de colaboração premiada firmado pela dupla foi formalmente rescindido por quebra de compromissos. Para Nelson Vigolo e Vanderlei Chilante, a PGR pediu a condenação por corrupção ativa e lavagem de capitais. Em relação a Júlio Cavalcanti, o órgão opinou pela concessão do perdão judicial em razão de sua cooperação efetiva, corroborada pelas perícias e documentos carreados aos autos.

Além das sanções penais e da decretação da perda do cargo público da magistrada, a acusação pediu a fixação de uma reparação de R$ 4 milhões por danos morais coletivos, devida de forma solidária pelos réus, diante do abalo provocado à imagem da Justiça baiana. A PGR solicitou ainda o perdimento definitivo da mansão em Praia do Forte em favor da União, sustentando que o patrimônio foi integralmente custeado com os recursos ilícitos extraídos da engrenagem de corrupção. Após a manifestação do MPF, o presidente do STJ abriu a palavra para as sustentações orais das defesas dos réus.

Classificação Indicativa: Livre

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