Polícia

Médica-veterinária teria usado empresa para blindar patrimônio em esquema de duplicatas falsas em Salvador; três pessoas são presas

Divulgação/Ascom PCBA
Mais de mil duplicatas falsas foram identificadas, envolvendo 200 empresas que não realizaram as operações indicadas nos documentos  |   Bnews - Divulgação Divulgação/Ascom PCBA
Redação BNews

por Redação BNews

redacao@bnews.com.br

Publicado em 15/09/2026, às 10h06 - Atualizado às 10h46



Três pessoas foram presas nesta terça-feira (15), em Salvador, durante a Operação Sem Lastro, deflagrada pela Polícia Civil, que investiga um grupo suspeito de criar e negociar títulos de crédito e recebíveis fraudulentos, incluindo duplicatas falsas.

Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão em residências e estabelecimentos comerciais. Um casal foi localizado no bairro de Jardim Armação, enquanto a terceira prisão ocorreu no bairro de Jardim das Margaridas.

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Durante a ação, foram apreendidos celulares, tablets, escrituras, cadernos, comprovantes bancários e outros documentos que podem contribuir para as investigações.

Como o grupo agia

Segundo as investigações, o grupo utilizava empresas ligadas ao ramo veterinário, com atividades de comercialização e armazenamento de ração e insumos veterinários, para dar aparência de regularidade às operações e viabilizar a emissão e negociação dos títulos no mercado financeiro.

De acordo com a polícia, o homem localizado em Jardim Armação, que atuava nos setores financeiro e comercial, é apontado como responsável pela criação, falsificação e negociação dos títulos fraudulentos.

Ele também participava do chamado autopagamento, utilizando recursos de empresas ligadas ao grupo para quitar alguns dos próprios títulos e criar uma falsa aparência de capacidade financeira. Mesmo após a descoberta das primeiras irregularidades, apresentou uma nova carteira de títulos fraudulentos no valor de R$ 17 milhões.

A mulher presa no Jardim das Margaridas atuava na área financeira e contábil. Segundo os autos, ela participava da manipulação de balanços e informações financeiras para conferir aparência de solidez econômica às empresas utilizadas nas operações.

Já a terceira investigada, médica-veterinária e esposa do principal investigado, atuava na área patrimonial e societária. Um dos elementos analisados foi a transferência, em 24 de março de 2026, da totalidade das cotas de uma empresa, avaliadas em R$ 1 milhão, para ela.

A operação financeira ocorreu durante as investigações e, segundo a apuração, esteve relacionada a uma suposta separação considerada simulada pelos investigadores. Publicações em redes sociais indicaram a continuidade da relação e da convivência do casal.

Prejuízo milionário

Ao longo da apuração, foram identificadas mais de mil duplicatas falsas, envolvendo mais de 200 empresas que apareciam nos documentos como responsáveis pelos pagamentos. Segundo a polícia, essas empresas não haviam realizado as operações comerciais indicadas nos títulos.

O valor das duplicatas negociadas ultrapassa R$ 32 milhões. Já o prejuízo confirmado pela investigação passa de R$ 15 milhões.

De acordo com o delegado responsável pela operação, José Nélis, as fraudes provocaram impactos para comerciantes e investidores.

"O esquema atingiu comerciantes e investidores, além de diversas pessoas que tiveram seus nomes protestados indevidamente por títulos que não correspondiam a dívidas reais. Os prejuízos foram especialmente graves para pequenos comerciantes, levando alguns deles à falência. A movimentação societária identificada durante as investigações também funcionou como mecanismo de proteção patrimonial, dificultando a localização e eventual recuperação de bens relacionados aos valores obtidos com as fraudes", detalhou.

Os três presos permanecem à disposição da Justiça. A Operação Sem Lastro é realizada pelo Departamento de Polícia Metropolitana (DEPOM), e as investigações continuam para esclarecer a participação individual dos envolvidos, acompanhar o fluxo dos recursos e identificar possíveis outros integrantes.

Delegados detalham como aconteciam os golpes

O delegado José Nélis, responsável pela operação, contou em entrevista ao Bnews como funcionava o esquema na prática e de que forma a polícia percebeu as fraudes e iniciaram as investigações.

“A Polícia Civil passa a ter informações, registro de boletim de ocorrências de pequenos empreendedores individuais, pessoas físicas que procuram a Delegacia de Polícia trazendo uma notícia que causa um assombro, em que milhares de títulos de crédito foram confeccionados em nome desses pequenos empresários e esses pequenos empresários começaram a amargar uma vida terrível, porque tiveram seus nomes negativados, tiveram seus negócios de pequeno empreendedor interrompido e muitos, inclusive, sendo direcionados à falência a partir desse grupo que atua falsificando títulos de crédito de pessoas que sequer tinham relação comercial, pequenos empreendedores de Salvador, de Mata de São João e de todo o interior do Estado da Bahia, bem verdade, que são vítimas significativas, porque são pessoas que tiveram a vida transformada, o sonho do empreendedorismo transformado em uma vida de amargura por esse grupo. Essa interrupção desse grupo causa um prejuízo significativo no mercado”, disse o delegado

“A Polícia Civil, então, passa a investigar, a atuar e descobre que eh esse grupo, além desses pequenos empreendedores, também aplicava golpes milionários nas representantes, nas empresas e corretagem de fundos, pegando, captando recursos de alto volumes em valor estimado inicial de R$ 15 milhões que chega até R$ 32 milhões, aplicando o golpe também nessas grandes empresas, falsificando títulos de crédito, levando pequenos empreendedores, pequenos comerciantes à ruína para se manter exatamente nesse mundo da criminalidade financeira”, acrescentou.

O diretor do Departamento de Polícia Metropolitana da Bahia, delegado Moisés Damasceno, deu detalhes das empresas que foram vítimas das fraudes durante entrevista ao Bnews. 

"Na manhã de hoje foi deflagrada essa operação. Foram três mandados de prisão cumpridos, três mandados de prisão temporárias, oito mandados de busca realizadas tanto na residência dessas pessoas que foram alvos da prisão, como também em sede de empresas, locais onde havia depósito de mercadorias, esses materiais vão ficar apreendidos, uma parte em relação à instrução de crédito policial, porque foram apreendidos celulares, pendrives, notebooks, que vão servir para a extração desse material, e outra parte, como as mercadorias, por exemplo, vão ficar à disposição, porque pode servir inclusive para recompor o patrimônio daquelas pessoas que foram vitimadas", pontuou o delegado.

"É um golpe grande, um golpe que gira em torno de 15 milhões, que pode ter movimentado até mais, até 32 milhões e gira em torno de títulos de créditos falsos, falsificados por esse grande mentor, que era um indivíduo que trabalhava na empresa de investimento, uma empresa de gestora de investimento. Esse indivíduo era diretor comercial dessa empresa de investimentos e, a partir do momento que ele tomou conhecimento como funcionava negócio, ele teve a ideia de aplicar esses golpes e que gerou esse grande prejuízo, não só em relação a fundos de investidores, como também em relação a empresas pequenas que tiveram títulos e apareceu como pessoas sacadas, ou seja, como devedoras daqueles créditos que na verdade não existiam", destacou o delegado.

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