Política

A nova direita sem os Bolsonaro: os caminhos para 2030

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A direita brasileira enfrenta o desafio de se reinventar e consolidar sua força sem depender da liderança da família Bolsonaro até 2030  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Arquivo
Davi Lemos

por Davi Lemos

davi.lemos@bnews.com.br

Publicado em 02/11/2026, às 07h30



A direita brasileira terá um desafio decisivo até 2030: construir uma alternativa eleitoral capaz de preservar a força conquistada nos últimos anos sem depender da liderança da família Bolsonaro. Mais do que escolher um candidato à Presidência, o movimento precisará definir sua identidade política, reorganizar suas forças e encontrar um nome capaz de unir diferentes correntes conservadoras.

A ascensão da família Bolsonaro não pode ser compreendida sem considerar o vácuo de lideranças efetivamente identificadas com a direita no cenário político brasileiro durante décadas. Antes da década de 2010, poucos políticos e cidadãos tinham disposição (ou coragem) para se assumir publicamente como integrantes desse campo. A oposição ao PT, representada principalmente pelo PSDB, estava alinhada à social-democracia e não poderia ser classificada, sem muitas e pertinentes ressalvas, como uma direita conservadora ou liberal. Era a "direita" que se tinha.

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O regime militar, frequentemente associado ao conservadorismo, também não representou a consolidação de uma direita política organizada. Foi marcado por uma estrutura de poder predominantemente militar e tecnocrática, influenciada pelo positivismo e pelo desenvolvimentismo - aliás, o próprio Jair Bolsonaro poderia ser mais identificado a este movimento que a uma direita conservadora. Carlos Lacerda, por exemplo, uma das últimas lideranças de direita, apoiou o golpe de 1964, mas acabou perseguido pelo regime e teve seus direitos políticos cassados em 1968.

Só partir da década de 2010, esse cenário começou a mudar. O mercado editorial brasileiro passou a receber inúmeros autores liberais e conservadores, oferecendo um contraponto às ideias predominantes na esquerda. Goste-se dele ou não, muitos desses novos autores chegaram às mãos dos brasileiros por sugestão de Olavo de Carvalho. A direita também ampliou sua presença nas ruas, nas redes sociais e no debate público. Nas universidades, porém, sua participação permanece discreta, seja por preservação pessoal, seja por estratégia diante de um ambiente acadêmico ainda considerado hostil à divergência de ideias.

Foi nesse contexto que Jair Bolsonaro encontrou condições para se apresentar como alternativa ao sistema político tradicional. A família Bolsonaro não criou a direita brasileira, mas ocupou um espaço político que permanecia aberto havia décadas. A questão que se coloca agora é se esse campo será capaz de sobreviver à liderança que o consolidou.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece como um dos nomes mais competitivos para liderar esse processo. Sua experiência administrativa, interlocução com o empresariado e capacidade de diálogo com partidos de centro poderiam ampliar o alcance eleitoral da direita. Já a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL/DF) representa uma alternativa para os setores que desejam preservar a identidade bolsonarista, especialmente entre mulheres e eleitores evangélicos. Posso estar enganado, mas não identifico potencial em nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Ratinho Júnior.

A reorganização da direita, entretanto, exigirá uma avaliação das condições institucionais em que o campo conservador disputa o poder. Nos últimos anos, decisões do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral tornaram-se um dos principais pontos de conflito entre a direita e as instituições. Para os críticos, a composição da Suprema Corte passou a representar um obstáculo à atuação política do campo conservador, justamente em um Poder do qual se espera imparcialidade.

As controvérsias também envolvem decisões de cortes estrangeiras em processos relacionados a brasileiros investigados ou condenados pelo STF. Setores da direita apontam decisões internacionais sobre pedidos de extradição e cooperação jurídica como sinais de questionamento à atuação da Corte brasileira. Em todos os pedidos de extradição realizados no âmbito do inquérito das Fake News ou do 8 de Janeiro, cortes internacionais apontaram a parcialidade da Corte para negar as extradições. O mesmo pode ser decidido pelo judiciário norte-americano sobre um pedido pela extradição de Flávio Bolsonaro - para recordar, ainda durante a gestão Joe Biden, pedido sobre Allan dos Santos foi negado. A justificativa? A parcialidade do julgamento no Brasil.

O comportamento do TSE também deverá ocupar espaço nesse debate. Em 2022, o tribunal impôs restrições a medidas de Jair Bolsonaro relacionadas à ampliação de benefícios sociais durante o período eleitoral. Em 2026, o governo Lula conseguiu ampliar o valor do Bolsa Família e antecipar o pagamento de uma parcela majorada antes do segundo turno. A comparação alimenta questionamentos sobre a uniformidade dos critérios da Justiça Eleitoral, embora seja necessário considerar as diferenças legais e circunstanciais entre os episódios.

A direita precisará decidir se considera viável disputar seriamente o poder dentro das atuais condições institucionais ou se entende que será necessário promover mudanças na estrutura do Estado para garantir maior equilíbrio entre os Poderes. Enquanto setores conservadores denunciam o que consideram uma atuação política do Supremo, a esquerda, beneficiada por decisões judiciais favoráveis em diferentes momentos, não demonstra a mesma disposição para questionar a atuação da Corte.

A eleição de 2030 poderá representar uma transição histórica para o campo conservador: a passagem de um movimento organizado em torno de uma liderança familiar para uma força política capaz de se sustentar por meio de diferentes lideranças e de um projeto próprio de poder. Mais do que encontrar um sucessor para Bolsonaro, a direita terá de decidir que projeto pretende oferecer ao Brasil e se está disposta a construir uma alternativa que sobreviva às circunstâncias que permitiram sua ascensão.

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