Cidades

'Pagou o jantar, então merece sexo?': Propaganda de motel em Salvador associa gentileza a recompensa sexual

Bernardo Rego / BNEWS
Advogada e ativistas feministas criticam mensagem e apontam objetificação feminina. Motel nega que publicidade estabeleça relação de troca entre gentileza e intimidade  |   Bnews - Divulgação Bernardo Rego / BNEWS
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 03/11/2026, às 08h30 - Atualizado às 13h51



Uma frase exibida em um outdoor digital em frente ao Motel Hollywood, em Salvador, provocou críticas por associar gestos de gentileza e o pagamento de uma conta a uma suposta recompensa sexual.

Com a mensagem “Puxou a cadeira? Pagou a conta? Merece um Hollywood”, o letreiro foi interpretado por advogadas e ativistas feministas como uma reprodução de uma lógica machista velada, que coloca o homem na posição de provedor e sugere que mulheres deveriam oferecer intimidade em troca de atitudes masculinas.

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A advogada Ana Patrícia Dantas Leão relatou ao BNEWS ter ficado incrédula ao ler a mensagem. Para ela, a publicidade reforça a ideia de que a mulher seria um objeto de satisfação masculina e que seu corpo poderia ser tratado como uma espécie de pagamento por um jantar.

“Incredulidade. É difícil acreditar que, em 2026, uma empresa e uma agência de publicidade ainda aprovem uma mensagem dessas e a exponham em plena via pública. O letreiro reforça a ideia de que a mulher é objeto de satisfação sexual masculina e, pior, sugere que o corpo dela pode ser ‘pago’ com um jantar. É uma mensagem que alimenta a cultura do desrespeito e da mercantilização da mulher, justamente aquela que tanto se combate no enfrentamento à violência de gênero”, afirmou.

Na avaliação da advogada, a liberdade criativa da publicidade não deve ultrapassar os limites da dignidade humana. Ela diferencia uma campanha provocativa de uma mensagem que transforma mulheres em mercadorias.

“A publicidade pode ser ousada, criativa, irreverente e até provocativa. O limite está na dignidade da pessoa humana. Quando a mensagem transforma a mulher em mercadoria ou reduz sua presença a uma função sexual, ela deixa de ser ousada e passa a ser abusiva”.

Ativista vê reforço do machismo na publicidade

A advogada feminista Laina Crisóstomo, fundadora da TamoJuntas, organização não governamental (ONG) que oferece assistência jurídica, psicológica, social e pedagógica gratuita a mulheres em situação de violência, também criticou o conteúdo da publicidade.

À reportagem, a advogada afirmou que a mensagem reproduz uma lógica histórica na qual o homem, por assumir financeiramente determinadas despesas, acredita ter algum tipo de direito sobre a mulher.

“Fiquei muito em choque com a frase. Ela remete muito a uma perspectiva da troca sexual. Como se as mulheres, por serem bem tratadas, elas devessem algo para os caras. Acho que isso é um processo histórico. Um processo histórico de naturalizar que ele banca a casa, então ele pode bater na mulher. Ele é um bom pai porque ele banca as estruturas da casa, então deixe ele trair. Acho que esse é um processo histórico, o machismo, o patriarcado. Como se as mulheres não tivessem condições de pagar um motel. Pelo contrário, a gente tem batalhado para poder ter autonomia, para poder escolher para onde a gente quer, inclusive”, explicou.

Laina considera que a associação entre gentileza e recompensa sexual reforça a ideia de que as mulheres estariam permanentemente em dívida com os homens.

“É muito surreal. Puxou a cadeira, pagou a conta, abriu a porta do carro, deu uma carona, levou, pagou um Uber… Submeter isso a uma perspectiva de troca sexual, não é publicidade, pelo contrário, isso é reforço do machismo, do patriarcado, da naturalização do sexo sem consentimento, da violência sexual, do abuso sexual”, avaliou.

A ativista também relacionou esse comportamento à ideia de que homens provedores teriam maior poder dentro dos relacionamentos. Segundo ela, esse modelo prejudica tanto a autonomia feminina quanto a construção de relações baseadas na igualdade.

'Ninguém deve nada a ninguém'

Ao analisar a pressão que pode recair sobre as mulheres depois que um homem paga um jantar ou realiza algum gesto de gentileza, Laina destacou que o problema também está na expectativa de recompensa por atitudes que deveriam fazer parte de uma relação respeitosa. Ela também questionou o estereótipo masculino de provedor e defendeu que o pagamento de despesas não deve criar qualquer obrigação sexual.

“Ninguém deve nada a ninguém, independentemente se o cara pagou a conta ou se a mulher pagou a conta. Não, não existe dívida com ninguém”, afirmou.

Mulheres classificadas como "estupráveis"

A historiadora e educadora Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, avaliou a mensagem com preocupação e afirmou que esse tipo de publicidade reforça a condição de subalternidade das mulheres, como se elas estivessem disponíveis em troca de pequenas concessões masculinas. Na avaliação dela, campanhas desse tipo também deseducam os homens ao associar gestos de gentileza e educação a interesses sexuais, transformando mulheres em objetos.

“Avaliamos essas mensagens com bastante preocupação, considerando que a mesma reforça também a condição de subalternidade e disponibilidade em função de migalhas oferecidas pelos homens, mensagens como esta deseducam os homens, associando a gentileza e educação a interesses sexuais, tudo vira mercadoria e as mulheres objetos. Essas mensagens são como gatilhos que reforçam a mentalidade machista presente no sistema educacional familiar, naturalizando as práticas de uso e descarte do corpo feminino, retirando das mãos das mulheres a autonomia sobre seu corpo e colocando a serviço da satisfação masculina o que fragiliza bastante as mulheres”, disse.

A representante da ONG destacou também que, em um contexto de avanço das masculinidades tóxicas e do fundamentalismo religioso, esse tipo de narrativa pode ampliar a vulnerabilidade de adolescentes e jovens. Para ela, a publicidade contribui para a reprodução de discursos que classificam mulheres como mais ou menos disponíveis à violência sexual em espaços como escolas, ambientes de trabalho e outros círculos sociais.

“Essas narrativas reforçam e autoriza os homens e rapazes a classificar no seu meio social, escola, trabalho e demais espaços quais são as mulheres estupraveis e as que não são, objetivando mas uma vez os nossos corpos e colocando as adolescentes e jovens na condição de vulnerabilidade, ameaça e violências”, acrescentou.

Publicidade discriminatória

A advogada Ana Patrícia também apontou possíveis implicações jurídicas da campanha. Ela explicou que o Código de Defesa do Consumidor (CDC), no artigo 37, parágrafo 2º, considera abusiva a publicidade discriminatória de qualquer natureza.

Ela citou também o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), que estabelece parâmetros de respeito à dignidade humana e à decência nos anúncios.

“Ou seja, não se trata apenas de uma questão de mau gosto. Há fundamento para denúncia ao CONAR e aos órgãos de defesa do consumidor, e a própria empresa pode ser responsabilizada. Humor e criatividade não precisam ser construídos às custas da dignidade das mulheres”, declarou.

O que diz o motel?

A reportagem também procurou o Motel Hollywood para esclarecer o objetivo da campanha, o público-alvo da mensagem e a repercussão do letreiro. A administração do motel explicou que o "letreiro digital do Motel Hollywood exibe uma campanha em formato rotativo, com mensagens que se alternam e são atualizadas periodicamente, todas seguindo o mesmo conceito: celebrar os gestos de carinho, atenção e paciência entre o casal, de ambos os lados".

O motel também acrescentou que são exemplos frases como "Lembrou da data sem eu falar? Merece um Hollywood", "Aniversário de namoro? Merece um Hollywood" e "Não reclamou da minha demora? Merece um Hollywood".

O estabelecimento reforçou que a "frase mencionada no contato difere da redação original e, lida isoladamente, não representa o conjunto da campanha. A intenção é posicionar o Motel Hollywood como uma escolha para que o casal celebre junto momentos especiais da relação".

O motel também reforçou que "a campanha não estabelece qualquer relação de troca entre gentileza e intimidade, pois o convite é sempre dirigido ao casal, de forma conjunta e consensual".

Leia a nota enviada à reportagem:

"O letreiro digital do Motel Hollywood exibe uma campanha em formato rotativo, com mensagens que se alternam e são atualizadas periodicamente, todas seguindo o mesmo conceito: celebrar os gestos de carinho, atenção e paciência entre o casal, de ambos os lados.

São exemplos frases como "Lembrou da data sem eu falar? Merece um Hollywood", "Aniversário de namoro? Merece um Hollywood" e "Não reclamou da minha demora? Merece um Hollywood". A frase mencionada no contato difere da redação original e, lida isoladamente, não representa o conjunto da campanha.

A intenção é posicionar o Motel Hollywood como uma escolha para que o casal celebre junto momentos especiais da relação.

A campanha não estabelece qualquer relação de troca entre gentileza e intimidade, pois o convite é sempre dirigido ao casal, de forma conjunta e consensual. O Motel Hollywood respeita a diversidade de opiniões e está sempre atento ao retorno de seu público. Atenciosamente, Direção do Motel Hollywood."

Classificação Indicativa: Livre

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