Geral
por Cibele Gentil
Publicado em 04/11/2026, às 09h34
A empresa responsável por plataforma digital de programa da Prefeitura de São Paulo foi criada um mês após a assinatura do contrato de prestação de serviço. O programa Smart Sampa, da SentinelX, estava vulnerável a acessos indevidos.
Conforme publicação do site Folha de São Paulo, o contrato entre a prefeitura e o consórcio Smart City SP, para a implantação do programa, foi assinado em agosto de 2023. A publicação apontou ainda que, segundo informações da Junta Comercial paulista, o SentinelX foi aberto 29 dias depois.
Um ano depois, o SentinelX substituiu outra empresa fornecedora de tecnologia de câmeras de vigilância no consórcio, a Camerite, de Joinville, Santa Catarina. A entrada no grupo só foi aprovada pela prefeitura em outubro de 2024, quando o programa já foi oficialmente inaugurado.
É o nome do SentinelX que aparece nos sistemas internos do Smart Sampa, quando os agentes de segurança navegam por imagens de câmeras de vigilância e pesquisam dados de suspeitos identificados pela tecnologia de reconhecimento facial. O acesso não autorizado a imagens das câmeras de segurança ocorreu por meio da plataforma da empresa.
Uma reportagem do colunista Artur Rodrigues , do UOL, mostrou uma brecha de segurança no sistema. De acordo com as informações da matéria, o SentinelX e o Consórcio Smart City SP não se posicionaram a respeito.
Já a Prefeitura de São Paulo afirmou que "não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa". De acordo com a administração municipal, "o que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor da Guarda Civil Metropolitana entre os mais de 7.500 agentes de segurança".
Segundo o professor Marcelo Proença, da FGV Law, mudanças na composição de consórcios que contratam com o poder público são vetadas como regra. Pelo entendimento do Tribunal de Contas da União (TCU), as alterações são admitidas apenas em caráter excepcional.
O professor chamou atenção para a importância de levar em conta o histórico da atividade da empresa, especialmente quando o contrato envolve o tratamento de informações sensíveis. “Se não há um cuidado todo especial sobre quem vai prestar esse serviço para o poder público, pode colocar em risco todo o serviço, e de forma indireta toda a população”, disse.
A matéria da Folha de São Paulo também destacou a análise da situação por Marcelo Proença em relação ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Ele afirmou que há possibilidade de que o órgão instale procedimentos para analisar a mudança na composição do consórcio se houver suspeita de limitação à concorrência.
Apesar de não haver necessidade de aprovação prévia do Cade para a formação de consórcios que disputam licitações públicas, o professor disse que o conselho tem adotado o entendimento de que pode agir sobre atos que ocorram após a licitação.
Há algumas semanas, a SentinelX se apresentou em seu site oficial como uma Empresa Estratégica de Defesa (EED) e como parceira da gigante multinacional Microsoft. Contudo, a empresa não aparece na lista de empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa.
A reportagem da Folha também destacou que, entre os dias 22 e 23 de outubro, após entrar em contato com o ministério questionando o uso do selo, a SentinelX retirou a marca de seu site oficial. A matéria também afirmou que pasta não teria respondido.
A matéria cita que ainda que entrou em contato com a Microsoft Brasil. Quando procurada, a organização afirmou que, após verificações internacionais, “não há acordos com o SentinelX como membro de seu programa de parceiros”.
As EEDs foram criadas por lei em 2012 para dar incentivos a um setor estratégico da indústria brasileira. A lei estabelece normas especiais para compras, contratações e desenvolvimento de produtos e de sistemas de defesa. O uso indevido de selos utilizados pela administração pública é crime, punível com pena de até seis anos de reclusão e multa.
De acordo com a Folha, há apenas um produto com o nome SentinelX, registrado em nome da empresa Bembras Integração e Engenharia. Bembras e SentinelX têm um sócio em comum, Jorge Marques Moura, mas não têm participação societária entre si.
Jorge Marques Moura é sócio da empresa CLD, antes chamada Consladel, que também integra o consórcio Smart City SP. A CLD já foi alvo de denúncias sob acusação de lavagem de dinheiro, pagamento de propina e desvio de palavras públicas.
Em Manaus, ele e a empresa foram acusados de causar um prejuízo de R$ 100 milhões à prefeitura. A Justiça chegou a determinar o bloqueio de bens de Moura em 2015 como desdobramento do caso. Depois, porém, o caso foi arquivado por causa de uma questão técnica na denúncia oferecida pela promotoria.
O CLD também faz parte dos consórcios que administram a iluminação pública e um aplicativo municipal de caronas da capital paulista. Segundo a matéria, a concessão da iluminação pública da cidade vive um imbróglio jurídico desde a fase de licitação.
De acordo com o Ministério Público de São Paulo, a licitação foi conduzida de modo a favorecer o consórcio formado pela CLD. Em agosto, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 1,02 bilhão em bens de três agentes e ex-agentes públicos e da empresa concessionária.
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