Política

Morte de Tancredo Neves: Família quer descobrir se houve falhas no atendimento médico

Reprodução
Decisão unânime do Tribunal Regional Federal da 1ª Região permite que a família tenha acesso a prontuários, exames e registros médicos da internação do ex-presidente  |   Bnews - Divulgação Reprodução
Redação Bnews

por Redação Bnews

redacao@bnews.com.br

Publicado em 01/11/2026, às 07h13 - Atualizado às 07h15



Mais de 40 anos depois da morte de Tancredo Neves, a família do ex-presidente poderá finalmente ter acesso aos documentos sigilosos sobre o tratamento médico que ele recebeu antes de morrer.

A Justiça Federal determinou a quebra do sigilo médico dos registros da internação no Hospital de Base, em Brasília, após uma batalha judicial que se arrastava desde 2010. A decisão pode esclarecer suspeitas de erro médico que cercam um dos episódios mais marcantes da história política brasileira.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Google News Bnews

A autorização foi aprovada por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Com a determinação, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) deverão liberar prontuários, exames, relação de médicos envolvidos no atendimento e outros documentos.

Ao g1, as duas entidades informaram que ainda não haviam sido oficialmente notificadas. O conteúdo dos registros também não foi divulgado.

Família tenta esclarecer suspeitas sobre atendimento

Tancredo Neves foi internado na véspera da posse presidencial, em março de 1985, com um quadro de diverticulite, inflamação na região do intestino grosso. Ele morreu em 21 de abril daquele ano, depois de passar por procedimentos cirúrgicos e enfrentar complicações de saúde.

A família busca esclarecer se houve falhas no atendimento médico durante o período de internação. As suspeitas ganharam força após a publicação do livro O paciente, de Luís Mir, em 2010.

Com autorização dos familiares, o escritor pesquisou os procedimentos realizados durante o tratamento e apontou possíveis irregularidades. A advogada Juliana Porcaro, representante da família, explicou que os conselhos de medicina negaram inicialmente o acesso aos documentos, alegando sigilo da relação entre médico e paciente. A negativa levou o caso à Justiça.

Quatro pontos levantaram suspeitas de erro médico

As hipóteses de falhas no tratamento de Tancredo Neves se concentram em quatro questões apontadas pelo autor do livro e pelos familiares.

Uma delas envolve a decisão de realizar uma cirurgia de emergência. Especialistas ouvidos por Luís Mir questionaram a necessidade de uma intervenção imediata, já que procedimentos para tratar diverticulite costumam ser eletivos, ou seja, podem ser programados enquanto o paciente recebe outros cuidados.

Outro ponto diz respeito às condições da cirurgia. Mais de 30 acompanhantes teriam permanecido na sala durante o procedimento, prática considerada proibida por questões de segurança.

A família também busca entender por que médicos envolvidos no tratamento receberam uma advertência do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. O motivo da notificação ainda não foi esclarecido.

O quarto questionamento envolve possíveis falhas no protocolo de recuperação, que, segundo a investigação apresentada no livro, poderiam ter contribuído para as complicações enfrentadas pelo ex-presidente.

Advogada cita episódio envolvendo médicos

Após sofrer uma hemorragia e outras complicações, Tancredo foi transferido do Instituto do Coração (Incor) em estado grave.

A advogada Juliana Porcaro também relatou um episódio relacionado à declaração da morte do ex-presidente.

"Quando ele veio a óbito, os médicos não tiveram coragem de declarar o óbito, eles chamaram o médico americano [Warren Zapol], que veio ao Brasil e avaliou", conta Juliana.

Uma das fotografias mais conhecidas daquele período mostra Tancredo sentado ao lado de vários médicos, dias antes de sua morte. Segundo os questionamentos apresentados no livro, a posição em que o presidente eleito aparece na imagem seria incompatível com a região do corpo submetida à cirurgia.

Família quer entender advertência aplicada aos médicos

Para Juliana Porcaro, a liberação dos documentos ultrapassa o interesse dos familiares e envolve a própria história política brasileira.

"Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse 'algo' que a família quer ter acesso. Quer entender como os próprios médicos do Conselho entenderam a postura dos médicos responsáveis pelo presidente Tancredo Neves", afirma ao g1.

A advogada também contou que conversou com o ex-presidente José Sarney, vice na chapa de Tancredo e que assumiu a Presidência após a morte do político.

"Ele confirmou que teve esse receio de assumir a presidência, porque foi muito delicado. Ninguém sabia se isso ia ser bem aceito", comenta.

Com a morte de Tancredo, Sarney assumiu a Presidência e deu início ao novo período de governo civil no país.

Classificação Indicativa: Livre

Facebook Twitter WhatsApp


Cadastre-se na Newsletter do Bnews (Beta)