Salvador
por Mariana Bamberg
Publicado em 01/11/2026, às 07h00
Salvador, que em 2010 era uma das três cidades mais populosas do Brasil, perdeu mais de 250 mil habitantes entre os censos de 2010 e 2022, caindo para 2,55 milhões de moradores e se tornando a capital com a maior perda populacional do país.
A queda demográfica é atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a redução no número de nascimentos, a diminuição da atratividade da cidade para novos moradores e a migração de soteropolitanos para municípios vizinhos como Lauro de Freitas e Camaçari, que cresceram significativamente.
A redução pode impactar em perda de verbas do Fundo de Participação dos Municípios. A série de reportagens aponta as causas dessa migração e os desafios que a cidade enfrenta em termos de planejamento urbano e distribuição de serviços.
O ano era 2010 e Salvador figurava no ranking das três cidades mais populosas do país. Somava 2,67 milhões de habitantes, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo. Já havia até quem arredondasse para os 3 milhões de moradores, afinal, a expectativa era apenas de crescimento. E, entre os mais otimistas, existia a esperança de uma distância cada vez maior das capitais que apareciam logo atrás: Brasília e Fortaleza. A frustração veio a galope no Censo seguinte: nem os 3 milhões, nem o top três de cidades mais populosas. No levantamento de 2022, Salvador perdeu mais de 250 mil habitantes e ainda caiu duas posições na relação de capitais com maior população.
O movimento não foi pontual. Neste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou as Estimativas da População e mostrou que a cidade não só mantém o padrão de queda, como ainda é a capital com maior perda populacional. Foi um recuo de 0,17% em relação ao ano anterior, levando Salvador a 2,55 milhões de habitantes.
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O que está por trás desse encolhimento? Para onde estão indo os soteropolitanos e como a saída de moradores pode transformar a cidade? Essas são algumas das perguntas que orientam uma série de quatro reportagens da BNews Premium sobre a nova dinâmica populacional de Salvador. Ao longo das publicações, serão examinadas as mudanças demográficas e urbanas da capital e três fatores que podem estar contribuindo para a saída de moradores: o custo de vida na capital, as condições do mercado imobiliário e a crescente atratividade dos municípios da Região Metropolitana.
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Os números não dizem respeito apenas ao tamanho do município ou à sua posição em um ranking. A população é considerada, por exemplo, no cálculo dos coeficientes do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), na definição do limite de vereadores e serve de referência para uma série de indicadores sociais, econômicos e demográficos. Não à toa, logo após a divulgação do Censo 2022, o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), questionou os dados do IBGE, assegurando que o município não perderia verba do FPM.
Com todo respeito ao IBGE, pode ter tido dificuldade dos recenseadores de extrair a realidade. Se você for [ver], nesses últimos 12 anos, o número do eleitorado aumentou, o número de pessoas que usam o Sistema Único de Saúde aumentou, aumentaram as matrículas de educação, os beneficiários dos programas sociais. Evidente que a gente vai aguardar a análise final desses números, que serão revisados", disse o prefeito à época.
A evolução do eleitorado, de fato, confirma parte do argumento do prefeito. Salvador passou de aproximadamente 1,83 milhão de eleitores, em 2010, para 1,95 milhão em 2026, um crescimento de cerca de 120 mil pessoas. Mas o movimento não foi contínuo: o número de eleitores chegou a superar 1,98 milhão em 2022 e recuou nos anos seguintes. A aparente contradição, no entanto, não significa necessariamente um erro na contagem populacional. Afinal, o tal crescimento pode ter relação com uma mudança na pirâmide etária da cidade, já que, enquanto o Censo contabiliza os moradores habituais do município, o eleitorado considera as pessoas inscritas na Justiça Eleitoral e aptas a votar.
Já o aumento da procura por serviços públicos pode refletir mudanças no perfil socioeconômico da população, na cobertura dos programas e na utilização das redes de saúde e educação, sem que isso represente, obrigatoriamente, a chegada de novos moradores.
A pergunta que surgiu quase imediatamente depois do Censo parece simples: para onde foram esses mais de 250 mil moradores que deixaram Salvador? A resposta é mais complexa. Não há um único movimento capaz de explicar sozinho o encolhimento da capital. Nem todos os moradores necessariamente foram embora. Parte da explicação está no fato de que a cidade passou a registrar cada vez menos nascimentos.
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A capital acumula sete anos consecutivos de redução no número de nascidos vivos e registrou, em 2024, 23.361 nascimentos, o menor número em 50 anos da série histórica do IBGE. O chamado crescimento vegetativo, diferença entre nascimentos e mortes, ajuda a dimensionar a transformação: considerando pessoas com nascimento e óbito registrados em Salvador, o saldo caiu de 19.791, em 2010, para 5.481 em 2024. É pouco mais de um quarto do registrado 14 anos antes.
Mas não é só o fato de que menos soteropolitanos estão nascendo. Se durante décadas a capital foi destino de quem deixava outras cidades em busca de emprego, estudo e oportunidades, agora, esse movimento perdeu força. Supervisora de Disseminação de
Informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros explica que a perda de atratividade e centralidade das grandes cidades não é uma particularidade soteropolitana. De acordo com ela, grandes centros urbanos, inclusive fora do Brasil, passam por processos semelhantes de perda populacional e redução da capacidade de atrair novos moradores.
Há ainda a saída de baianos para outros estados. Embora também em ritmo menor do que no passado, a Bahia continua “exportando população” para estados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Por ser o município mais populoso do estado, é estatisticamente provável que Salvador responda por uma parcela dessas saídas, destaca a supervisora.
Mas há outra pista para a explicação sobre a queda populacional. E esta vai além das fronteiras do município, embora permaneça dentro da Bahia. Enquanto Salvador perdeu quase 10% de seus moradores entre 2010 e 2022, Lauro de Freitas e Camaçari cresceram. Os dois municípios registraram aumentos populacionais superiores a 24% e 23%, respectivamente. O contraste chama atenção especialmente em um contexto de estabilidade demográfica no estado e de perdas populacionais em 232 dos seus 417 municípios.
O crescimento dos municípios vizinhos também alterou o peso de Salvador dentro da própria Região Metropolitana. Em 1991, a capital concentrava 80% dos habitantes da RMS. Em 2022, essa participação havia caído para 71%, segundo levantamento publicado pelo Observatório das Metrópoles. Em pouco mais de três décadas, Salvador perdeu nove pontos percentuais de participação na população metropolitana, enquanto os demais municípios ampliaram seu peso.
A transformação, no entanto, não começa exatamente onde termina Salvador. Dentro da própria capital, os dados do Censo mostram que a perda de moradores está longe de ser uniforme. Enquanto bairros tradicionais, em grande parte localizados no miolo central da cidade, perderam milhares de habitantes, áreas situadas no vetor de expansão em direção ao litoral norte registraram crescimento expressivo.
Jardim das Margaridas, próximo à divisa com Lauro de Freitas, passou de aproximadamente 4,5 mil moradores, em 2010, para 20,6 mil em 2022, um acréscimo de cerca de 16 mil pessoas. Em Patamares, a população saltou de 5,1 mil para 21 mil habitantes. Areia Branca, também nas proximidades da fronteira municipal, passou de 2,5 mil para 9,2 mil moradores. Nova Esperança e Piatã completam a lista dos cinco bairros com maiores ganhos populacionais absolutos no levantamento. Todos eles estão na divisa com Lauro de Freitas ou na orla norte de Salvador.
Na direção contrária, Fazenda Grande do Retiro perdeu aproximadamente 12,7 mil habitantes no mesmo período. Pernambués e Beiru/Tancredo Neves registraram reduções próximas de 12 mil moradores cada. São Caetano e Brotas também aparecem entre os bairros com maiores perdas. Somados, esses cinco bairros deixaram de contabilizar cerca de 58 mil habitantes em 12 anos. Com exceção de São Caetano, também há uma semelhança entre eles: estão localizados no miolo da capital.
O contraste mostra que a retração populacional não atinge Salvador de maneira uniforme. Enquanto determinadas regiões perdem moradores, outras continuam crescendo, especialmente na direção dos municípios vizinhos. Mas esse movimento ultrapassa os limites da capital?
O Atlas da Migração Interna do Brasil mostra que só entre 2017 e 2022, metade do período entre os dois últimos censos, mais de 45 mil pessoas deixaram a capital para morar em outros municípios da RMS. No caminho inverso, 8.165 moradores dessas cidades se mudaram para a capital, resultando em um saldo negativo de 37.505 pessoas para Salvador.
Lauro de Freitas e Camaçari aparecem justamente como os principais destinos de quem deixou os limites soteropolitanos. Foram 18.060 pessoas que se mudaram de Salvador para Lauro de Freitas e outras 15.605 para Camaçari. Juntas, as duas cidades receberam 33.665 antigos moradores de Salvador. Os números permitem identificar um fluxo que os dados gerais de crescimento populacional apenas sugeriam.
Os dados ajudam a sustentar uma interpretação que vai além da perda de habitantes: Salvador pode estar crescendo para fora dos próprios limites. O arquiteto, urbanista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Gilberto Corso acredita que a perda de moradores pode ser interpretada também como uma expansão da capital para além de suas fronteiras. Isso porque o Censo considera os limites oficiais do município, mas a ocupação urbana não termina necessariamente onde começa Lauro de Freitas. Na prática, a cidade foi se estendendo em direção ao litoral norte, aproximando bairros da capital de áreas dos municípios vizinhos. Parte dos moradores pode ter atravessado essa fronteira sem, necessariamente, romper seus vínculos com Salvador.
A mudança de endereço não significa necessariamente deixar Salvador para trás. O mesmo Atlas da Migração mostra que 20.800 moradores de Lauro de Freitas e 8.435 de Camaçari trabalham na capital baiana. Outros 9.135 moradores dessas duas cidades se deslocam para Salvador para estudar. Os números mostram como a fronteira municipal separa o local de residência do local de trabalho ou estudo de milhares de pessoas, sem interromper a relação entre as cidades.
Para o geógrafo e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Antonio Lobo, essa dinâmica também precisa ser observada a partir das mudanças na distribuição das oportunidades econômicas da Região Metropolitana. Salvador continua sendo um importante polo de empregos e serviços, mas já divide com municípios como Camaçari e Lauro de Freitas a capacidade de atrair trabalhadores. Na avaliação do pesquisador, o crescimento econômico dessas cidades amplia as alternativas para quem busca trabalho e moradia fora da capital.
Ao todo, na Região Metropolitana, 113.960 trabalhadores exercem suas atividades em um município diferente daquele onde moram. O tempo mediano de deslocamento é de uma hora, e pouco mais da metade utiliza transporte coletivo, segundo o Atlas.
Essa integração entre os municípios também cria desafios que Salvador não consegue resolver sozinha. Para Corso, o planejamento urbano precisa ultrapassar as fronteiras administrativas e considerar a Região Metropolitana como um território integrado, especialmente nas decisões sobre mobilidade e distribuição de equipamentos de educação. Afinal, o crescimento das áreas residenciais em direção às cidades vizinhas, sem uma distribuição equivalente de empregos, serviços e equipamentos públicos, pode, por exemplo, ampliar as distâncias percorridas pelos moradores e aumentar a pressão sobre os sistemas de transporte.
Há, porém, outro paradoxo nessa transformação: a expansão para além das fronteiras não significa necessariamente que Salvador tenha ficado sem espaço para crescer. Corso também observa que ainda existem áreas pouco ocupadas na orla, enquanto regiões mais antigas da cidade acumulam imóveis vazios ou que deixaram de ser utilizados como moradia. Algumas dessas áreas já contam com infraestrutura e serviços, mas vêm perdendo população. O contraste ajuda a levantar outra questão: mais do que uma simples falta de espaço, a maneira como Salvador vem ocupando seu território também pode estar contribuindo para deslocar o crescimento urbano em direção às suas fronteiras.
O desafio, portanto, não está apenas em compreender quantos moradores Salvador perdeu, mas em investigar por que parte da população passou a buscar outros endereços, mesmo quando continua trabalhando, estudando ou utilizando os serviços da capital. O que pesa nessa decisão? E o que os municípios vizinhos oferecem que Salvador já não consegue garantir nas mesmas condições?
Essas perguntas conduzem as próximas três reportagens da série. A primeira vai investigar o peso do custo de vida em Salvador, dos aluguéis às despesas com transporte e serviços. A segunda examinará o mercado imobiliário, a disponibilidade de terrenos, os preços dos imóveis e as diferenças entre as opções de moradia na capital e nos municípios vizinhos. A terceira se voltará à crescente atratividade da Região Metropolitana, com a expansão de empreendimentos, oportunidades de emprego, infraestrutura e conexões de transporte.
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